O Rio Xopotó

Por Geraldo Barroso de Carvalho

Cipotânea e o Rio XopotóNasci e passei parte da minha infância em Cipotânea, numa casa modesta cujo quintal terminava na margem esquerda do Rio Xopotó.

O Xopotó nasce na vertente nordeste da Serra da Conceição, inserida nas grimpas da Mantiqueira, no município de Desterro do Melo. A partir da sua foz, essa é a mais alta e a mais distante das nascentes de todos os cursos d´água que formam a bacia do Rio Doce. Cerca de cinqüenta quilômetros abaixo, o Xopotó entra em Cipotânea e banha o lado leste da cidade, onde seu curso sereno agita-se em três cachoeiras e algumas corredeiras. Dentro do município, ele recebe três afluentes, todos em sua margem esquerda. Um deles, o raquítico e sinuoso Rio Espera, desenha seus meandros no lado do poente.

Ora, por que estou a rememorar dados geográficos frios e insossos?

Quando menino, de pé no chão, em minha terra natal, eu não me preocupava com essas coisas que nada me diziam, nem media as distâncias entre tal e qual acidente daquele rio da minha infância. Encantava-me a visão das cachoeiras que, de repente, interrompiam o fluxo tranqüilo das verdes águas que o Xopotó exibia nas épocas secas e que se turvavam num tom amarronzado, nos períodos chuvosos.

Não gostava de ver o Xopotó de águas turvas, mas não me sai da memória o verde transparente dessas mesmas águas nas estações mais secas. No fundo do vale de todos os matizes verdes, essas águas fluíam preguiçosas, silenciosas para permitir que se ouvissem os cantos dos muitos pássaros e das aves ribeirinhas.

Rio XopotóEncantamento.

Ali não cantava a jandaia nas frondes da carnaúba, não eram bravias as águas, nem as praias do rio perlongadas por coqueiros. Não. Ali, as águas eram mansas e, de suas margens encapoeiradas, ouviam-se os trinados do gaturamo, do canário-cabeça-de-fogo, do sabiá. Ouvia-se a cantilena lamentosa da saracura: quebrei três potes, três potes. Mais adiante, ouvia-se o sonoro e ritmado pio do nhambu, o som melancólico do cantar da juriti. Ouvia-se também o canto estridente das seriemas, o arrulho das rolinhas, o gorjeio confuso de tantos pássaros sem nome. Sons que ainda se fazem ouvir nos meus sonhos e nos enlevos da minha saudade.

Como era excitante sair, em caminhada, pelas margens do meu rio, contemplar suas cascatas, ver o salto dos peixes na época da piracema e apanhar, com as mãos, os lambaris vencidos pela força da correnteza. Como era gostoso mergulhar nos remansos do Xopotó ou catar os seixos que se formavam nos rasos de suas corredeiras.

Para uma criança, viver a infância em Cipotânea, à beira do Xopotó, nos idos dos anos quarenta, era viver as delícias do Éden. Tudo era lazer: as caçadas de passarinhos, os banhos nos rios, as rondas pelos quintais alheios, para apanhar as frutas da época e a procura das frutas silvestres. O ingá, de bagos adocicados, contidos em vagens gordas, cuja árvore é abundante, nas margens dos nossos rios; a gabiroba, frutinha gostosa, acidulada, com o formato de uma goiabinha, porém de sabor mais doce e mais marcante; o bacuripari que a garotada chamava bacupari, fruto ovóide, com um gostinho um pouco azedo, saboroso; o coco brejaúba, ovalado, meio ponteagudo, cujo conteúdo é formado pela água e a polpa, pouco suculenta, mas de bom sabor. Esses frutos eram abundantes nos matos e capoeiras que rodeavam a pequena localidade e margeavam o Xopotó.

Vou parar por aqui. Estou ouvindo, ao fundo, o canto de um sabiá. Vou parar, antes que as lágrimas turvem meus olhos. Antes que eu comece a chorar.

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